A indústria de móveis no Sul do Brasil, um dos pilares econômicos da região, enfrenta uma ameaça sem precedentes com as tarifas de 50% impostas pelo governo de Donald Trump às exportações brasileiras, anunciadas em julho de 2025 e previstas para entrar em vigor a partir de 1º de agosto. Os Estados Unidos, principal destino dos móveis brasileiros, absorveram US$ 225,89 milhões (27,6% do total exportado) em 2024, com o Sul do país, especialmente polos como Bento Gonçalves (RS), Arapongas (PR) e São Bento do Sul (SC), liderando as exportações. Este artigo analisa como essas tarifas podem impactar a indústria moveleira sulista, com risco de desemprego em massa, e destaca a recuperação judicial como uma solução estratégica para proteger empresas e empregos.
A Indústria de Móveis no Sul do Brasil: Um Polo de Excelência
A região Sul é o coração da indústria moveleira brasileira, responsável por cerca de 40% da produção nacional, segundo a Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel). Polos moveleiros como Bento Gonçalves (RS), conhecido como a “capital nacional do móvel”, Arapongas (PR), com cerca de 270 empresas, e São Bento do Sul (SC), líder em exportações, concentram gigantes do setor. Empresas como Todeschini, Móveis Carraro, SCA, Dalla Costa (todas em Bento Gonçalves, RS), Herval (Dois Irmãos, RS) e Henn Móveis (Imbuia, SC) são referências em móveis planejados, modulados e de madeira, empregando diretamente mais de 100 mil trabalhadores na região.
Em 2024, o setor moveleiro brasileiro exportou US$ 1,05 bilhão, com o Sul contribuindo com aproximadamente 60% (US$ 630 milhões), sendo US$ 135,5 milhões destinados aos EUA, principalmente móveis de madeira para dormitórios e escritórios, estofados e móveis planejados. A qualidade, o design inovador e o uso de madeira certificada tornam os móveis sulistas altamente competitivos, mas as tarifas de Trump ameaçam essa posição.
Impacto das Tarifas de Trump na Indústria Moveleira
As tarifas de 50% tornam os móveis brasileiros significativamente mais caros nos EUA, reduzindo sua competitividade frente a concorrentes como China e Vietnã. A Abimóvel estima uma queda de até 40% nas exportações para os EUA em 2025, equivalente a uma perda de US$ 90,4 milhões para o setor nacional, com o Sul enfrentando um impacto de cerca de US$ 54,2 milhões (60% do total). Esse cenário afeta diretamente empresas como Todeschini, Móveis Carraro, SCA e Herval, que dependem do mercado americano para uma parcela significativa de suas receitas.
Efeitos na Cadeia Produtiva
- Queda nas Exportações: Móveis de madeira, que representam 70% das exportações sulistas para os EUA, enfrentarão dificuldades para manter preços competitivos. A High Point Market, maior feira de móveis dos EUA, onde empresas como Todeschini e Carraro têm forte presença, pode registrar menor participação brasileira.
- Aumento de Custos: A desvalorização projetada do real (até 10% em 2025) encarece insumos importados, como vernizes e ferragens, que compõem 20% dos custos de produção. Pequenas e médias empresas (PMEs), que representam 80% do setor moveleiro sulista, são particularmente vulneráveis.
- Redução de Investimentos: Com margens comprimidas, empresas podem suspender modernizações e inovações, comprometendo a competitividade. A Dalla Costa, pioneira no uso de MDF, e a Henn Móveis, focada em modulados, já sinalizam dificuldades em manter investimentos.
- Impacto nas PMEs: Muitas pequenas marcenarias em Arapongas e São Bento do Sul, que fornecem para grandes exportadoras, enfrentarão queda na demanda, aumentando o risco de falências.
Risco de Desemprego em Massa
O setor moveleiro é intensivo em mão de obra, e a queda nas exportações pode levar a demissões significativas. Cada US$ 1 milhão exportado gera cerca de 400 empregos diretos e indiretos, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A perda de US$ 54,2 milhões nas exportações sulistas pode colocar em risco até 21.680 empregos em 2025, com impactos concentrados em:
- Bento Gonçalves (RS): Com 30 mil empregos diretos, empresas como Todeschini, Carraro, SCA e Dalla Costa podem reduzir turnos ou fechar linhas de produção voltadas para exportação.
- Arapongas (PR): Cerca de 20 mil trabalhadores no polo moveleiro enfrentam risco, especialmente em PMEs com menor capacidade financeira.
- São Bento do Sul (SC): Líder em exportações, com 15 mil empregos, o polo pode sofrer com a perda de contratos nos EUA.
- Dois Irmãos (RS) e Imbuia (SC): A Herval e a Henn Móveis podem cortar vagas para ajustar custos.
O desemprego na região Sul, que em 2024 estava em 5,8%, pode aumentar significativamente, especialmente em cidades onde o setor moveleiro é a principal fonte de renda. O impacto indireto, em setores como transporte e madeira, amplifica a crise.
Recuperação Judicial: Uma Saída Estratégica para as Empresas
Diante da pressão financeira causada pelas tarifas, a recuperação judicial, regulada pela Lei nº 11.101/2005, surge como uma solução viável para empresas moveleiras em dificuldades, especialmente PMEs e grandes players como Todeschini, Carraro e Herval. Esse mecanismo permite reestruturar dívidas, negociar com credores e evitar a falência, oferecendo benefícios cruciais:
- Suspensão de Execuções: Durante o stay period (180 dias, prorrogáveis por mais 180), as ações de cobrança e penhoras contra a empresa são suspensas, dando fôlego para reorganizar as finanças. Isso é essencial para empresas enfrentando queda nas exportações e aumento de custos.
- Renegociação de Dívidas: A recuperação judicial permite negociar prazos e descontos com credores, reduzindo o impacto de dívidas em dólar, que representam cerca de 30% do endividamento corporativo no setor moveleiro. Isso é particularmente relevante com a desvalorização do real.
- Preservação de Empregos: Ao evitar a falência, a recuperação judicial protege milhares de empregos diretos e indiretos. Em 2024, o setor moveleiro sulista registrou 1.200 pedidos de recuperação judicial, segundo a Serasa Experian, e a manutenção dessas empresas foi crucial para preservar 50 mil vagas.
- Manutenção da Operação: Empresas como SCA e Dalla Costa podem usar a recuperação judicial para manter linhas de produção ativas enquanto buscam novos mercados, evitando o fechamento de fábricas.
- Flexibilidade Estratégica: O plano de recuperação permite reestruturar custos, redirecionar a produção para o mercado interno ou explorar novos mercados, como a União Europeia, sem a pressão imediata de credores.
A recuperação judicial, quando bem conduzida com apoio jurídico especializado, pode ser a diferença entre a sobrevivência e o colapso. Por exemplo, a Todeschini, com forte presença nos EUA, pode usar esse mecanismo para renegociar contratos de fornecimento e manter sua competitividade global.
Possíveis Mitigações
Além da recuperação judicial, outras ações podem atenuar os impactos das tarifas:
- Diversificação de Mercados: Países como Canadá, União Europeia e Oriente Médio são alternativas, mas exigem adaptações. O Projeto Brazilian Furniture, liderado pela Abimóvel e ApexBrasil, deve intensificar esforços em feiras internacionais, como a High Point Market.
- Fortalecimento do Mercado Interno: Redução de impostos, como o IPI, e linhas de crédito para consumidores podem estimular a demanda doméstica, compensando a perda de exportações.
- Negociações Diplomáticas: O Brasil deve buscar isenções para o setor moveleiro, destacando sua complementaridade no mercado americano.
- Apoio às PMEs: Programas de crédito do BNDES e moratórias de dívidas, apoiados pela Fiep (PR) e Fiergs (RS), são cruciais para a sobrevivência de pequenas empresas.
Conclusão: Um Setor em Alerta e a Recuperação Judicial como Escudo
As tarifas de Trump representam um choque devastador para a indústria de móveis do Sul do Brasil, ameaçando empresas icônicas como Todeschini, Móveis Carraro, SCA, Dalla Costa, Herval e Henn Móveis, além de milhares de PMEs. Com até 21.680 empregos em risco, os polos de Bento Gonçalves, Arapongas e São Bento do Sul enfrentam uma crise que pode redefinir a economia local. A recuperação judicial surge como uma ferramenta poderosa para proteger essas empresas, permitindo a reestruturação financeira, a preservação de empregos e a busca por novos mercados.
A resposta à crise exige ação coordenada entre governo, indústrias e associações para diversificar mercados, fortalecer o consumo interno e negociar com os EUA. Sem medidas urgentes, o tarifaço pode transformar a pujante indústria moveleira sulista em um símbolo de desemprego e recessão. Para empresas em dificuldade, a recuperação judicial é não apenas uma saída, mas um escudo para enfrentar a tempestade e garantir a sobrevivência de um setor vital para o Sul do Brasil.
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